Curso de italiano na web

setembro 9th, 2011 by marcodeliso

Nosso blog nasceu como extensão de nossa recém-nascida escola de italiano online; depois, como acontece, ganhou muita autonomia, e se tornou uma forma agradável e –esperamos- interessante para expressar o ponto de vista de um italiano, que vive e trabalha no Brasil, sobre seu país de origem. Através de nossas palavras e nossos contos os leitores interessados podem entrar em contato com um olhar sobre a Itália sincero e que, dentro de nossas capacidades, fuja da obviedade dos estereótipos tradicionais.

Todavia, hoje queremos voltar ao intento inicial e falar um pouco sobre nossa atividade: o ensino da língua italiana. O que italianonline faz? Basicamente, oferecemos aulas particulares de italiano ministradas através do computador, utilizando o programa skype e outras ferramentas informáticas, fáceis de usar, que permitem aproveitar as lições como se fossem presenciais mas, ao mesmo tempo, possibilitando usufruir de todos os infinitos recursos que a web oferece.
O trabalho do professor, temos que admitir, está se tornando mais fácil: hoje se um aluno não conhece, por exemplo, o significado da palavra italiana “secchio” não precisamos mais criar explicações tortuosas, ou pior, traduzir em português (o que é altamente deseducativo para quem está aprendendo um idioma estrangeiro); é suficiente, no momento da dúvida, passar pelo skype um link como este, e logo depois voltar a falar de assuntos mais sérios! Quem vos escreve teve por vários anos a experiência de ser professor particular em São Paulo, e sabe muito bem quanto tempo e energia se gasta para sair de casa ou do escritório para fazer qualquer tipo de atividade em uma grande cidade. As aulas online evitam este verdadeiro sacrifício ao aluno assim como ao professor.

De fato, existem hoje muitas ofertas interessantes que permitem aprender online. A web constitui um grande recurso, mas é preciso cuidado, para reconhecer a seriedade e o profissionalismo de quem pretende nos ensinar uma nova língua. Por exemplo: não se iludam sobre a possibilidade de aprender uma língua de graça! Aprender a falar, entender, ler e escrever não é tarefa fácil; conheço alguns extraordinários autodidatas, que conseguiram aprender sozinhos; mas são pessoas com uma facilidade fora do comum, e de qualquer forma aprenderam estudando com muita dedicação livros e gramáticas. Ninguém aprende seguindo um tutorial de 15 minutos em um site que promete maravilhas. Isso se parece com as milhares de revistas que explicam como emagrecer 5 quilos em um mês continuando a comer como sempre: é mentira.

Por outro lado, existem ofertas de aulas online sérias, que permitem alcançar bons resultados. Italianonline é uma destas. Nós ensinamos apenas italiano, mas há também grandes sites, como verbaplanet.com, que põem em contato, em uma plataforma muito bem organizada, professores e estudantes do mundo inteiro e de qualquer língua, inclusive as mais exóticas. Muito interessante é também o site livemocha.com, em que os programas de exercícios, escritos e falados, são corrigidos por pessoas que falam a língua que você está estudando, e que estão participando do site para aprender, por sua vez, outro idioma estrangeiro. Aqui você não encontra profissionais, mas pode aprender de forma agradável e encontrando muitos novos amigos, além de poder também ajudar quem está aprendendo a sua língua!

Enfim , no ensino de línguas a web e suas novas possibilidades de comunicação estão ajudando bastante. Como em muitas outras coisas, precisamos de senso critico e capacidade de reconhecer o valor e a seriedade das propostas. Bom estudo a todos!

Primo, secondo e contorno

julho 10th, 2011 by marcodeliso

É difícil dizer o que é a “cozinha italiana”. Principalmente, porque, como em quase todas as coisas importantes da cultura do meu país, as “Itálias” são muitas, vinte quanto nossas regiões, cem quanto nossas –principais- cidades. O que é igual no país todo é a parte pior da culinária, aquela condicionada e no fim destruída pela globalização, pela pressa, às vezes pela incapacidade nossa de parar e pensar no que é que nos dá mesmo prazer na vida. Na pausa pelo almoço, saindo do trabalho, os italianos comem macarrão pré-cozido ou sanduíches de atum, mas disso mesmo não vale a pena falar.

Mas quando conseguem fugir da indústria da alimentação forçada e da prisão da rotina, os italianos encontram algo que, talvez melhor do que qualquer outra coisa, define e qualifica nossa comunidade nacional. Quero repetir: não nos conteúdos, nem nos sabores. A  panzanella (sopa de pão velho e tomates) que se pode comer na Toscana não será  a mesma que o turista encontrará na Lombardia, onde em compensação ele poderá saborear a cassoela feita com quase todas as partes do porco, sem por isso ter esperança de achar por lá uma caponata que só pode ser feita com berinjelas da Sicilia. Sem falar das infinidades de queijos, embutidos, vinhos que são fruto da peculiaridade climática e natural de cada região e também de uma sabedoria milenar de populações há muito tempo acostumadas a cultivar sua própria terra com amor e cuidado. Claro que existem características comuns, como a tendência à simplicidade, o uso limitado de manteiga e outras gorduras, geralmente substituídas pelo nosso ótimo azeite de oliva (o que constitui a principal razão pela qual, apesar de alguns preconceitos, a cozinha italiana, e a mediterrânea no geral, não fazem engordar mais do que as outras), e naturalmente um amor pelo macarrão e pela pizza que une todos os italianos.

Mas como eu ia dizer, apesar das diferenças, todo italiano tem antes de tudo muito orgulho de sua tradição gastronômica. Isso poderia parecer óbvio ou normal, mas tem que pensar que meus compatriotas são no geral muito pouco nacionalistas, e têm em grau muito baixo a tendência a considerar seu país melhor do que os outros. Sua cidade, sim, é sempre a melhor do mundo; mas os italianos tendem a considerar  ter sempre algo a menos do que os outros povos: menos organizados do que os alemães, menos modernos do que os holandeses, menos competitivos do que os americanos, menos civilizados do que os franceses,  menos alegres do que os brasileiros… mas em questões de cozinha não tem discussão: nossos vinhos, nossos queijos e nossos pratos são únicos, e se saímos da Itália é talvez para viver melhor, mas com certeza também para comer pior!

O assunto seria infinito, tanta é a importância que possui em nossa cultura, mas hoje queria resolver uma dúvida de alunos e amigos brasileiros: porque falamos  tanto de primo, secondo e contorno? O que vem a ser tudo isso? Em um típico almoço italiano não se encontrará um prato único: o italiano não gosta da mistura de sabores, e sempre prefere a simplicidade. Restaurante por quilo, em que você coloca um monte de comidas mais ou menos desconjuntadas no mesmo prato, não existe e provavelmente nunca vai existir na Itália. A refeição completa começa pelo antipasto, que pode incluir torradas, embutidos, queijos; continua com o primo piatto, que pode ser um dos mil tipos de macarrão, um risotto, uma minestra (sopa); em seguida chega o secondo piatto, geralmente de carne ou de peixe, acompanhado por verduras e legumes o (contorno). Para concluir, um dessert (palavra bem pouco italiana, mas que usamos para indicar algo de doce como por exemplo um bolo caseiro) e o inevitável caffè (espresso, nem precisa falar: é o único que exista na Itália, os outros são considerados “cose da americani”). O leitor deve estar pensando que para comer tudo isso deve precisar de muito tempo. E precisa mesmo, aliás, o tempo necessário cresce ainda mais por causa das conversas demoradas que sempre acompanham a refeição, e pelas esperas que nos restaurantes italianos nunca são breves. Mas no fim, se a mesa é um lugar de prazer, de encontros , de conhecimento, porque deveríamos querer levantar tão cedo? Buon appetito a tutti!

Marco De Liso
italianonline

Uma música italiana- Jovanotti, Per te

junho 9th, 2011 by marcodeliso

Alguns dias atrás apresentamos para vocês uma carta pública do cantor Lorenzo Cherubini,nome artístico Jovanotti, em defesa da escola pública. Lorenzo declarava que preferia inscrever sua filha na escola pública, onde talvez ela não aprenderá  três línguas estrangeiras, mas será capaz, em compensação, de relacionar-se com a grande variedade de diferenças que a sociedade e o mundo têm. Queria aproveitar para agradecer aos amigos queridos que intervieram com suas idéias, dúvidas e comentários.

Jovanotti não é conhecido no Brasil, mas é uma figura importante da música pop italiana dos últimos 20 anos. Sua alegria e talento são apreciados especialmente pelo público jovem, e ele soube unir qualidade musical com profundidade de visão sobre a vida, e muito bom humor. Quase um milagre! Querem conferir? Eis o vídeo original de Per te, que ele compôs em 1999, dedicado exatamente à filha, Teresa, que nasceu no dia 13 dezembro do ano anterior. Simplesmente poesia.

Marco De Liso
italianonline

Jovanotti e a escola pública

maio 27th, 2011 by marcodeliso

A Itália é o país das mil polêmicas. Uma das recentes envolve, para variar, nosso presidente Silvio Berlusconi, que durante uma conferência de não sei qual partido falou as seguintes palavras:

Liberdade significa ter a possibilidade de educar livremente nossos filhos, e livremente significa não serem obrigados a colocá-los numa escola de Estado, onde têm professores que querem inculcar princípios que são contrários àqueles que os pais querem inculcar nos filhos dentro de suas famílias”.

Estas afirmações provocaram muitas reações de intelectuais e gente comum em defesa da escola pública; penso que esta reação espontânea e poderosa seja interessante, porque nos permite de falar de uma instituição muito importante na história e na atualidade da Itália. O cantor Lorenzo Cherubini, conhecido como Jovanotti, um dos artistas mais celebres e interessantes do panorama musical italiano, interveio no debate com uma carta pública que fala de suas escolhas em relação à educação de sua própria filha. Achei a carta bonita, inteligente, e resolvi traduzi-la para vocês.

“Quando nossa filha teve a idade de ir para a escola eu e minha esposa conversamos a respeito e decidimos: escola pública. Nós podíamos nos permitir escolher, e escolhemos. Pensamos que era justo assim, para ela. É nossa filha e é para nós a pessoa mais importante do mundo, mas também é uma criança italiana, e a Itália tem uma Escola Pública. Sabíamos que ela ia se inserir em uma realidade problemática, mas era este mesmo o motivo de nossa escolha.
Um lugar público, que fosse propriedade dela na qualidade de jovem cidadã, que não fosse gerido como uma empresa e que não fundasse seus princípios sobre uma doutrina religiosa, apesar de todas as religiões serem acolhidas. Um lugar público, de todos e para todos, cenário de conquistas como de erros, de pequenas misérias e de grandes horizontes, teatro de diferentes saberes e de diferentes ignorâncias. Há algo para aprender nas ignorâncias também, não apenas nos saberes selecionados. A escola é para todos, tem de ser para todos, é bom que seja assim, é uma grande conquista ter uma escola pública, especialmente a obrigatória.

Eu já conheci países onde a escola pública è apenas uma palavra, é muito pior, também se tem uma pequena minoria que fica bem confortável e protegida e aprende a falar três línguas. Para que serve saber três línguas se no fim das contas não faz idéia de como falar com alguém que é diferente de você? Nosso presidente falando o que ele falou ofendeu milhões de famílias e milhares de pessoas que dedicam o tempo melhor de suas vidas ao ensino, com cuidado, com afeto de verdade para os alunos.

A escola do Estado é aquela que é financiada com os impostos dos cidadãos, também daqueles que não tem filhos e daqueles também que colocam os filhos na escola particular, eis o ponto. É uma conquista, é como a água que sai da torneira: quem quiser pode comprar sua água mineral preferida no supermercado, mas ninguém se atreve a envenenar a água da torneira para vender mais águas minerais!
É uma conquista de civilização, que agora è um direito. Já era, desde sempre, um direito de todas as crianças, mas ainda precisava conquistá-lo, afirmá-lo. Hoje, a escola pública tem que ser defendida, cuidada, melhorada.
Como idéia, e depois propriamente como escola: com os bancos, os professores, os alunos e as lousas. Devemos amá-la, e ter orgulho dela.”


E vocês, qual sua opinião a respeito? Estão com Jovanotti ou com Berlusconi?
Nos próximos dias falaremos mais sobre Jovanotti, e sobre a escola pública italiana!

Marco De Liso
italianonline

Outra pequena aula de italiano. Mas desta vez não é minha…

maio 13th, 2011 by marcodeliso

Ter um blog permite, entre outras coisas, de encontrar pessoas simpáticas e interessantes. Allan pertence a esta categoria. O blog dele, Carta da Itália, fala do meu pais de origem de um jeito sempre original, agradável e inteligente. Nossos blogs são quase simétricos, quer dizer: os dois falam da Itália, mas enquanto aqui tem o ponto de vista de um italiano que mora no Brasil e olha de longe para seu país, lá se trata de um brasileiro que mora na Itália e descreve, de perto, um país para ele estrangeiro. Espero de ter um dia a possibilidade de conhecer pessoalmente o Allan, e aconselho todas as pessoas interessadas no “mundo italiano” a se unir ao numeroso grupo de leitores de Carta da Itália.

Hoje estou falando do Allan porque ele nestes dias escreveu uma  explicação sobre o trattamento di cortesia, ou seja, sobre como devemos, em italiano, falar para alguém nas situações que requerem uma maior formalidade, por exemplo relacionando-se com um oficial público ou com uma pessoa desconhecida e/ou mais velha. Em outras palavras, se trata do uso do Lei, como alternativa ao Tu. Bom, mas agora não vou falar mais nada: Allan explica tudo muito bem, com grande sensibilidade em relação às dificuldades que os brasileiros poderiam encontrar estudando este assunto, aqui.

post scriptum: minha amada esposa está viajando. Entre tantas coisas que faltam na minha vida quando ela não está, encontra-se a possibilidade de ter ao meu lado uma paciente e competente revisora de textos em português. Desta vez ninguém fez este trabalho para mim. Peço desculpa pelas imperfeições e os erros que muito provavelmente eu coloquei neste texto.
Marco De Liso
italianonline

Pequenas aulas de italiano: “c’è”, “ci sono”

maio 5th, 2011 by marcodeliso

Hoje acrescentamos uma nova pequena aula à seção “principiante”. Desta vez, o assunto são as expressões “c’è” e “ci sono”, que sei, por experiência, que criam às vezes umas dificuldades a quem estuda italiano.
Muitos leitores estão me encorageando para eu ampliar as pequenas aulas de italiano presentes neste blog. Estou muito feliz, porque tantas pessoas estão achando útil esta ferramenta que estamos disponibilizando. Obrigado, seguimos trabalhando!

Marco De Liso
italianonline

O Brasil visto de fora – pequeno comentário sobre a reportagem de Federico Rampini

abril 4th, 2011 by marcodeliso

Um título tem que ser sintético, e seria naturalmente muita presunção de minha parte tentar explicar tudo o que se pensa do Brasil na Europa. Os pontos de vista são parciais por definição. Mas é interessante remarcar alguns aspectos.

Do Brasil se fala relativamente muito, e por razões novas. Não é mais apenas questão de futebol, carnaval e mulheres bonitas e sorridentes. Tem, é claro, o crescimento econômico, mas isso não seria suficiente para explicar a verdadeira transformação que a imagem do Brasil está tendo no exterior; uma transformação da qual falo com prazer, exatamente por achar que muitos brasileiros não a estão percebendo. Alguns apenas por falta de informação; outros, por ainda estarem ligados a alguns estereótipos segundo os quais,  nos países assim ditos desenvolvidos,  a opinião que se tem  sobre  o Brasil depende principalmente de qual parcela da população sabe falar inglês ou de quantas crianças conseguem fugir da escola pública para ir estudar no colégio suíço ou americano.

Na verdade, o que constitui “a característica mais importante, que torna o Brasil um caso único”, nas palavras de Federico Rampini, é o fato de que enquanto nos últimos quarenta anos no mundo inteiro, quase sem exceções, a desigualdade – a pobreza dos pobres e a riqueza dos ricos – não parou de crescer sequer por um dia, o Brasil se pôs na contramão, demonstrando a todos que um caminho diferente é possível.

Essa mudança de imagem tem uma data de nascimento: em Janeiro de 2001 uma cidade brasileira promoveu e sediou o primeiro Fórum Social Mundial. Desde então, o nome de Porto Alegre é conhecido no mundo inteiro, e ligado indissoluvelmente a uma idéia de progresso, de participação e de justiça social. É isso que hoje desperta a admiração e até a inveja de muitos no mundo, em relação ao Brasil: que um país onde a desigualdade, ou, para falar de um jeito mais sincero,  a injustiça era provavelmente a maior do planeta, tenha conseguido, por decisão própria e sem condicionamentos, entrar no caminho (ainda muito longo!) que une a prosperidade à inclusão, à transformação e ao progresso social.
Marco De Liso
italianonline

A idéia que a Europa tem do Brasil

março 21st, 2011 by marcodeliso

No jogo de espelhos que é este blog, que normalmente apresenta a visão da Itália de um italiano que vive no Brasil, hoje queria apresentar mais um reflexo: quero falar, por uma vez, do contrario, de como os italianos vêem o Brasil. Saiu uma matéria muito importante nestes dias no jornal Repubblica, em ocasião da visita do presidente dos Estados Unidos Barack Obama no Brasil. O autor da reportagem , Federico Rampini, é um jornalista e escritor afirmado, profundo conhecedor dos Estados Unidos, uma voz muito escutada na Itália; Repubblica è um dos dois maiores jornais nacionais. Enfim, a reportagem que saiu no dia 18 deste mês é daquelas, como se diria no Brasil, que formam a opinião. No meu ponto de vista, reflete muito bem o que os europeus informados e atentos à atualidade internacional pensam do momento atual do Brasil.  Com a autorização do Federico Rampini, traduzi a matéria, quase na integra,  e a apresento para vocês. Colocarei em um post sucessivo um pequeno comentário.

O Brasil do milagre agora é a locomotiva da economia mundial

Obama, pela primeira vez no Rio, visitará uma favela. Símbolo da pobreza, mas agora também do resgate de um país que cada ano atrai investimentos externos de 45 bilhões de dólares, mas é um exemplo de socialdemocracia

RIO DE JANEIRO –  O que são Estados Unidos? “Aquele lugar onde só tem inverno?” supõe João Paulo, 6 anos. Quem é Obama? “Obama é um Lula”, responde com decisão Agatha Vitoria, 5 anos. Aqui os meninos querem todos tornar-se Ronaldinho ou Kaká, a surpresa vem das meninas: quando interrogadas sobre a carreira muitas imaginam um futuro de empresarias. Não é um idéia tão obvia, no lugar onde elas estão. É uma sala da primeira serie no “Solar Meninos de Luz”. Uma instituição inserida entre duas famigeradas favelas do Rio, formigueiros de casinhas agarradas a um morro, cidades de barracos que devoraram a vegetação tropical para amontoar 15 000 moradores em construções ilegais, por décadas sem água corrente e sem luz, grudados como  crustáceos a uma parede íngreme que poderia desmoronar numa tempestade tropical.

Apenas no Brasil é possível que um lugar tão degradado se encontre exatamente na divisa entre as duas praias mais chiques e famosas de todo o hemisfério Sul: Copacabana e Ipanema. E em homenagem à fantasia carioca que desafia as adversidades do destino, estas duas favelas históricas no coração do Rio têm nomes de pássaros: Pavãozinho e Cantagalo. Eles são o símbolo de uma nação cruel, que por séculos viu conviver a poucos metros de distância o luxo descarado dos super-ricos e a miséria abjeta do subdesenvolvimento. Mas hoje, elas se tornaram o símbolo de algo novo: um desenvolvimento que, pela primeira vez, agride de verdade a pobreza, atenuando as desigualdades. Esta é a razão pela qual Barack Obama, que inaugura amanhã sua primeira visita como presidente na America do Sul, no domingo irá para o Rio e pediu para visitar uma favela. Sem clamor polêmico, sem os ideologismos cubanos ou venezuelanos, o Brasil destes anos se tornou um modelo de socialdemocracia que tem algo para ensinar para os Estados Unidos
(…)

A transformação da favela è fruto de uma ação combinada: alem dos voluntários que trabalham “em baixo” teve uma intervenção “do alto”.  No sentido literal: è do alto que caíram sobre esta e outras favelas do Rio os helicópteros do exército, grupos paramilitares, corpos especiais de combate. Uma verdadeira operação de guerra, planejada, um dos últimos atos do presidente Lula, em acordo com o governador do estado e com o prefeito. “95% das pessoas daqui não a percebeu como uma invasão, e sim como uma liberação”, me diz Sallyr Lerner, 65, que por toda a vida foi “o dentista das favelas”.
O Estado tomou pela primeira vez o controle deste território, mafiosos e traficantes fugiram. E aquela invasão espetacular não ficou um ato isolado. Os lixeiros que varrem as ruelas são um sinal que o Estado ainda está aqui. Como o carro da Polícia Pacificadora que controla a entrada da favela: uma presença impensável ainda um ano atrás, quando as forças de ordem não ousavam se aproximar. “Uma destas favelas –me conta a fotografa Ana Rodrigues- era chamada de Faixa de Gaza. Ali, os traficantes vendiam a droga nos banquinhos ao ar aberto, com o kalashnikov pendurado nas costas. As crianças pegavam minha mão para me levar onde eu podia fotografar as poças de sangue quente das vítimas dos últimos tiroteios”.

As favelas continuavam crescendo em altura, por causa dos “puxadinhos” das casas que acabam sobrepondo-se uma a outra. Mas a caótica colméia de Cantagalo agora já è toda de tijolos, e não de madeira: modesto sinal de um primitivo bem-estar que avança. Atrás da metamorfose das favelas há um fenômeno muito mais amplo. A taxa de desemprego brasileira caiu a 6,1%: o valor menor de todos os tempos, menor do que nos Estados Unidos e na União Européia. Parte deste progresso è simplesmente efeito do crescimento de todos os países emergentes. Nas palavras de José Carlos Martins, diretor executivo da Vale, que è o segundo colosso minerario mundial:”nós acordamos de manhã esperando que a China esteja bem”.

Soja, açúcar, café, madeira, cobre, ferro, ouro: tudo o que a natureza despejou com muita abundancia pelo Brasil, é extremamente visado nas nações asiáticas que são os locomotores do crescimento. Este País, que tornou-se tristemente célebre por suas bancarrotas, que entre 1940 e 1995 teve que mudar oito vezes nome à sua moeda por causa da hiperinflação, hoje se tornou o quarto maior credor  dos Estados Unidos. Os investimentos estrangeiros alcançam 45 bilhões de dólares por ano: apenas a China atrai mais dinheiro. O Brasil deu a letra inicial ao novo acrônimo dos Bric, com Russia India e China faz parte do clube das “outras” potencias, aquelas que aceleram enquanto o ocidente declina. No Rio e em São Paulo se respira a mesma confiança no futuro que lembro de ter percebido em Mumbai e em Shangai. Mas, entre os Bric, o Brasil é aquele que pode exibir a estrutura de exportações mais equilibradas. Diferentemente de China e India, o Brasil é um “celeiro” do mundo, tem uma agricultura moderna que pode competir com a dos Estados Unidos e produz muito mais do que consome. Diferente da Russia ou de outros países emergentes, não vive apenas de matérias primas. Exporta automóveis, celulares, eletrodomésticos, navios e locomotores. Sua jóia industrial é a Embraer, terceiro grupo aeronáutico mundial atrás de Boeing e Airbus.

Depois vem a característica mais importante, que torna o Brasil um caso único entre os Bric: a quarta democracia do mundo conseguiu usar a expansão econômica para reduzir as desigualdades, ao invés de aumentá-las como aconteceu com a China. “Nós somos uma exceção –acrescenta o economista Ernani Texeira da Brazilian Development Bank- também em relação às tendências das democracias liberais mais maduras”. Nos Estados Unidos e em grande parte da Europa, as diferenças de renda e de patrimônio se acentuaram. “Nossa sorte” -ironiza o economista  Fabio Gambiagi da BNDES- talvez seja ligada  a uma brincadeira da história. A nova constituição do Brasil democrático foi aprovada um ano e meio antes da queda do Muro de Berlim, numa época em que ainda existia confiança no papel do Estado”.

O primeiro que a aplicou de verdade foi Lula. Sua política social, que hoje continua com a presidenta Dilma Roussef, (ex-chefe de gabinete de Lula, um passado na luta armada, a prisão e a tortura durante a ditadura militar), “incorporou” pela primeira vez na economia multidões de pobres. O salário mínimo, que interessa 25 milhões de trabalhadores, depende de dois índices: a taxa de inflação, e o crescimento anual do PIL. Uma benção do céu em um período de grande crescimento como foi o dos últimos 8 anos. Hoje o mínimo vale mais que 300 dólares, um nível bem mais alto em relação aos outros países sul-americanos. “Esta é a melhor maneira para reduzir a desigualdade: enriquecer os pobres, ao invés de empobrecer os ricos”, observa Gambiagi. Não se pode falar o mesmo de Hugo Chavez ou do socialismo cubano. O Brasil conquistou uma admiração mundial por causa da invenção do Bolsa família, um subsidio direto para as mães que é pago apenas se os filhos vão regularmente à escola. Funciona, e é o melhor antídoto que já foi inventado contra o trabalho infantil.

Naturalmente, esta não é a Escandinávia, permanece uma terra com muitos pobres, corrupção, injustiças: mas é um dos poucos países no mundo onde o índice Gini que mede a distancia entre ricos e pobres diminui constantemente nos últimos 8 anos. Agora o milagre “de esquerda” brasileiro tem que enfrentar desafios importantes, filhos do seu próprio sucesso. Tem uma moeda fortíssima, que torna Rio e São Paulo as cidades mais caras do mundo, e não ajuda as exportações industriais. A supervalorização poderia se acentuar nos próximos anos por conta da descoberta de jazidas imensas de petróleo offshore, a 200 km da baía de Rio, que tornarão o Brasil a quarta ou quinta potência energética do mundo. Entende-se assim o interesse de Obama por este parceiro-rival, cuja força começa a sombrear o grande vizinho do Norte. Foi Obama que pediu explicitamente para incluir na sua visita em Rio uma favela, a Cidade de Deus. “Hoje pode explorá-la tranquilamente –me diz Ana Rodrigues- um ano atrás aqueles lá teriam atirado também no presidente dos Estados Unidos”.

Federico Rampini

Repubblica, 18/3/2011

Marco De Liso
italianonline

Um metro e meio de amor pátrio

março 11th, 2011 by marcodeliso

Há quem fale que na Itália tudo fica sempre igual; outro lugar comum, nestes tempos, é que no parlamento a maioria “Berlusconiana” e a oposição “democrática” não se entendem sobre nada. Muito bem, notícia de hoje é que na verdade uma mudança irá acontecer, e que todas as forças políticas vão concordar. O assunto todavia é surpreendente, e vai inclusive na contramão pelo menos da evolução, por assim dizer, genética do povo italiano.

È o seguinte: será aprovada pelo parlamento italiano uma proposta, apoiada por todas as forças políticas, que baixa relevantemente o limite de altura necessário para alistar-se nas forças armadas. Até hoje, precisava no mínimo de 165 centímetros para os homens, e 161 para as mulheres. Daqui para frente, também os baixinhos poderão servir a pátria, no exército, na marinha como na aviação: 150 cm, será tudo o que precisará ter, sem diferença entre homens e mulheres, pondo fim também a qualquer discriminação de gênero!

Não posso resistir à tentação de pensar que esta atenção com as pessoas de dimensões concentradas possa ser  mais uma consequência da extensão do poder do nosso premiê, Silvio Berlusconi. Todo mundo sabe como ele se diverte nos fins de semana, mas ninguém conhece exatamente sua altura. Baixinho, ele é, com certeza, mas quanto, é segredo de estado, tanto quanto as dimensões dos realces do sapato presidencial. Uma vez, durante a campanha eleitoral, acusou a esquerda comunista de chamá-lo de “anão”, enquanto ele tinha uma altura normal, de 171 centímetros, especificou. Não tenho nada, mesmo, com as pessoas de baixa estatura, mas os eleitores italianos, frente a esta declaração, deveriam ter sacado que esse homem tinha, com o conceito de verdade, uma relação pelo menos complicada.

Mas enfim, agora todo mundo parece feliz de por fim àquela discriminação que de fato tornava impossível a carreira militar para muitos italianos. Mas quantos são os italianos de baixa estatura? Nós não somos com certeza vikings,  mas a altura media dos italianos cresceu bastante nas últimas décadas, devido às melhores condições de vida e de desenvolvimento. Como sempre, tem também as diferenças regionais. Nas grandes ilhas, Sicilia e Sardegna, a população é pequena e responde mais àquele estereótipo do italiano miudinho e moreno, mas hoje em dia os contatos entre populações diferentes está levando também estas regiões a um crescimento da altura media.

Naturalmente, a variedade é sempre muita, e de agora em diante as forças armadas poderão aproveitar das qualidades especificas daqueles brevilíneos que, como falaram os parlamentares que estão apresentando o projeto de lei, são melhores do que os demais em muitas tarefas, como dirigir tanques ou lançar-se de para queda dos helicópteros. Afinal, Napoleão não tinha um metro e cinquenta e cinco? Vamos reformá-lo só por isso?

Quero concluir com um ditado bem italiano, que todo mundo conhece no meu pais, e que une, como muitas vezes acontece, a sabedoria gastronômica à filosófica: nelle botti piccole c’è il vino buono. Nos barris pequenos é que está o vinho melhor. Agora vocês sabem como responder, se alguém lhe chamar de baixinho!

Marco De Liso
italianonline

Pequenas aulas de italiano: a pronúncia italiana

fevereiro 18th, 2011 by marcodeliso

Meus queridos leitores

O Blog de Italianonline está recebendo cada dia mais visitas e atenção; a ferramenta que estamos disponibilizando para auxiliar quem está apreendendo nossa língua italiana, as pequenas aulas de italiano,  está precisando de um vigoroso plano de expansão, para atender às exigências de um número crescente de leitores. Hoje publicamos uma “pequena aula” muito importante, sobre a correta pronúncia italiana. As principais regras são acompanhadas por gravações em formado MP3. Fizemos um grande esforço para sermos  ao mesmo tempo sintéticos e exaustivos, e para manter o enfoque nas maiores dificuldades que os lusófonos (os que falam português como primeira língua) encontram em pronunciar e ler em italiano. Podem ler o resultado aqui: espero que gostem, e fico em aguardo de seus comentários!

Marco De Liso
italianonline